Ao chegar ao Brasil em 1550, o alemão Hans Staden não encontrou exatamente um paraíso tropical amigável. Após uma longa e turbulenta viagem marítima que rumava ao Rio da Prata, Staden viu o seu barco naufragar nas costas do Brasil, no litoral sul do atual estado de São Paulo. Capturado pelos índios Tupinambás, foi levado à Ubatuba, onde deveria ser morto e devorado pelos selvagens canibais.Após 9 meses de cativeiro, o alemão conseguiu se libertar e voltar para seu país natal a bordo de um barco francês. No período em que permaneceu na tribo indígena, teve a vida várias vezes ameaçada e partilhou dos hábitos e costumes aborígines. Mas também pôde presenciar muitas cerimônias de antropofagia contra homens brancos, que para os índios era uma forma de vingança pelas mortes de seus irmãos.
Isso é o que conta no livro Duas Viagens ao Brasil, lançado em 1557 na Alemanha, Staden registrou de forma acurada os seus tormentos de prisioneiro dos nativos, também utilizando xilogravuras para ilustrar a narrativa. Considerado um dos primeiros best-sellers em toda a Europa, a história de aventura é uma das primeiras reportagens sobre os povos que viviam no Brasil na época. Apreciado por ter uma linguagem simples, a história é relatada de uma forma sentimental, de um homem que entregou a vida a Deus e espera que ele decida o seu destino.
A obra foi dividida em dois capítulos: o primeiro conta as aventuras e o segundo descreve as peculiaridades da terra, os animais da região, como são os habitantes e quais são os seus costumes. O que impressiona é que Staden conseguiu manter um excelente poder de observação em meio aos perigos que passou. O autor, assim, ajudou a criar no europeu a imagem da selva brasileira exuberante, mas cheia de perigos e de uma cultura indígena estranha, ingênua e desconhecida. A obra foi editada sucessivas vezes e foi traduzida para várias línguas no mundo inteiro, e em 2000 teve um filme lançado no Brasil, Hans Staden – O Filme, dirigido por Luiz Alberto Pereira.
Passados mais de quatro séculos da narrativa, a história ainda tem entre suas grandes qualidades a de transmitir a sensação de angústia e horror diante da possibilidade de ser vítima de canibalismo e da forte mensagem religiosa contida nela. Um livro direto, necessário e para ser lido num fôlego só.
Tamires Souza


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